Ameaça

 _ Já parou pra pensar em como sugestivos nós somos?

_ Como assim?

_ Por exemplo, se eu pegar essa pedra aqui do chão e dizer que em algum momento eu irei jogar ela direto na sua cara, naturalmente você criará uma ansiedade imaginando quando eu iria taca-la, mesmo sabendo que esse não corresponderia com o meu comportamento, ou que nossa amizade de anos a fio já tenha comprovado a minha confiabilidade.

_ Tá, já consigo sentir a ansiedade.

_ Não seria louco se eu simplesmente tacasse ela e desafiasse completamente o seu lado racional que diz que as chances disso acontecer serão nulas?

_ Ei, ei. Melhor deixarmos essa situação hipotética de lado.

_ Veja bem essa pedra, ela não é tão grande ou pesada ao ponto de te machucar seriamente, e há uma chance considerável de eu errar se jogá-la dessa distância. Provavelmente você não está com medo da dor que ela possa causar, pois sabe que em algum momento a capacidade de se acostumar com as situações que o ser humano possui vai te dominar e transformar a dor em algo suportável. O que está em ameaça aqui para você é a imprevisibilidade da minha ação, mesmo eu já contando que eu pretendo executá-la.

_ Mesmo sabendo que meu cérebro não consiga lidar com a imprevisibilidade de você atirar a pedra, duvidando do que você possa ou não fazer com base no que aprendi sobre você, consigo fugir desses pensamentos e criar uma certeza falsa de que você não teria colhões.

_ Ah, é? De fato normalmente eu não teria coragem de fazer uma coisa dessas conforme minha criação me foi ensinada, mas acontece que todo ser humano também tem a capacidade de mudar conforme o ambiente muda. Como para tacar uma pedra requer menos tempo em um desvio de caráter do que aos cinquenta anos um professor de química produzir metanfetamina, seria facilmente viável eu pensar em seu rosto agora como uma simples latinha de cerveja e arremessar a pedra nela sem grandes complicações. 

_ Reitero que você não teria colhões necessário e de que é melhor pararmos por aqui.

_ Sinto o medo exalando de você como uma gazela encurralada a beira do abate de uma leoa.

_ Se meu corpo estiver transparecendo medo é por ser um simples gatilho de proteção do qual eu não tenho controle. Se você quer deixar isso mais emocionante faço uma aposta de 100 reais de que você jamais faria isso, nem mesmo agora com esse forte incentivo.

_ Humm, agora ficou divertido. Aceito sua aposta com uma condição.

_ Qual seria essa?

_ Que você feche seus olhos, e numa contagem de 3, tendo você até o “já” a opção de desistir, mas ainda sim resultando em eu ganhar o dinheiro.

_ Ok, não vejo problema.

_ Preparado? É 1... 2... 3... e.... já! 


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