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Mostrando postagens de janeiro, 2023

Pulsação

 Me encontro em uma situação das mais bizarras da minha vida agora. Faz cerca de uns 10 minutos que estou nesse quarto cheio de mofo. Na minha frente vejo telas, várias delas; aparentemente são imagens de câmeras e estão todas mostrando um homem nu em um quarto parecido com o meu, cada câmera virada para um ângulo diferente. Ele está sentado agora ao que parece... meditando? Na verdade, desde que me lembro de estar aqui nessa porcaria de lugar. Em tempos em tempos acontece uma coisa que eu não consigo descrever direito, o teto... as paredes... o quarto todo dele vibra. Parece doer muito. Lembra bastante uma possessão demoníaca. Quando acaba ele volta ao que estava fazendo. Nos primeiros minutos forçava minha mente ao extremo tentando descobrir a minha última memória sem ser nesse lugar; não consegui. É impossível tentar me imaginar sem estar aqui, parece ser o meu berço; onde cresci e fui criado. Mas de onde então veio o conhecimento externo que sei que existe em algum lugar de mim...

Versão única

 Pra começo de conversa digo que sou do futuro, ou melhor, do seu futuro. Precisamente no ano de 2184, e não, o mundo ainda não acabou até onde eu sei. Me recuso a entrar em detalhes pois a maioria das grandes transformações foram sociopolíticas, o que não passa de cansativo e inútil. O que eu realmente quero dizer aqui é o meu singelo ponto de vista sobre meus companheiros de século, suas formas de se expressarem corporalmente. De antemão digo que sou velho, na verdade me sinto velho. Não o típico rabugento que não gosta de mudanças, mas o que para um momento do dia pra escrever sobre algo que jugou ser relevante e que de nada importa aos outros pois é o normal. Por isso também redireciono a observação que farei ao passado, ao passado que vive na minha cabeça. Deixando de disque me disse vou ao assunto de vez. A grande estilização começou devagar, como todas as outras revoluções. As pessoas tingiam os cabelos, faziam crossovers em eventos, bronzeamento artificial, um brinco ali, u...

Sementes do fruto proibido

A companhia espacial de Lagutrop ativou o projeto “espólios”, onde cada nave composta apenas por um macho e uma fêmea da espécie tem o dever de habitar um planeta inabitável, ou com formas de vidas inferiores, estabelecer base autossustentável, procriar até formar uma população que cresça exponencialmente, e voltar para Lagutrop para colher os frutos do trabalho duro. Com cerca de 500 embarcações sendo lançadas ao mesmo tempo, alguns que se mantiveram no planeta sentiram um tipo de abalo sísmico e inspiraram fumaça de combustível vegetal. Aconteceu enfim o maior passo já dado com o objetivo de conquista. Todas as naves então seguiram rumos diferentes, mas com o mesmo destino: o desconhecido. Logo em 30 dias os primeiros que já havia uma certa noção dos possíveis planetas para a colonização se estabeleceram, outros tiveram que ir mais longe pela vastidão. Uma em específica chama atenção, Apo13. Encontraram anomalias de energia em um quadrante e perceberam que estavam na presença de um a...

Ameaça

 _ Já parou pra pensar em como sugestivos nós somos? _ Como assim? _ Por exemplo, se eu pegar essa pedra aqui do chão e dizer que em algum momento eu irei jogar ela direto na sua cara, naturalmente você criará uma ansiedade imaginando quando eu iria taca-la, mesmo sabendo que esse não corresponderia com o meu comportamento, ou que nossa amizade de anos a fio já tenha comprovado a minha confiabilidade. _ Tá, já consigo sentir a ansiedade. _ Não seria louco se eu simplesmente tacasse ela e desafiasse completamente o seu lado racional que diz que as chances disso acontecer serão nulas? _ Ei, ei. Melhor deixarmos essa situação hipotética de lado. _ Veja bem essa pedra, ela não é tão grande ou pesada ao ponto de te machucar seriamente, e há uma chance considerável de eu errar se jogá-la dessa distância. Provavelmente você não está com medo da dor que ela possa causar, pois sabe que em algum momento a capacidade de se acostumar com as situações que o ser humano possui vai te dominar e tr...

O criador

A grande unidade onisciente soberana observava a sua mais nova criação. Chamaremos essa unidade de Deus pois não há pronomes que sejam apropriados. Deus então olhava especificamente a cronologia do rumo da vida, não era a sua obra-prima, mas havia uma particularidade no nível de consciência dado a ela; existia uma quase compreesão do seu real criador. Sua onisciência dolorosa e solidão fez-lhe uma proposta em sua extensa imaterialidade de manta cósmica: quiz sentir a vida. Em instantes se transformou em ossos revestidos de carne e viu a luz pela primeira vez, já então não havia nenhuma camada de conhecimento. Começou do ínicio afim de reconhecer sua própria presença. Dali em diante, ele (agora podemos rotular) cresceu maravilhosamente. Via o tempo de uma forma que nunca havia visto antes: linear progressivo. Trazia agora sentimentos que o movia, comunicava de forma abstrata comparado a maneira anterior, e se locomovia com empecilhos o atrapalhando. Por algum motivo se sentia livre, mas...

Não, se toque

 Deus renegou aquele lugar. Fedia a cu de mendigo e perfumes baratos que disfarçava o suor para as moças noturnas. Apenas três restaram da saturnal no Meia-Boca Bar Motel. Gatos pingados, escória da escória.  Cássio estrebuchado na mesa se delicia de cada gole daquela cerveja quente, não por ela ter algum gracejo de ser puro-malte ou qualquer aprimoramento de sua cevada; era a última que o pobre podia pagar. Olhava pela janelinha que havia pro quintal do bar, dava pra ver as estrelas por ali, mas se lastimava por não conseguir mais ver a beleza delas. Em estado de melancólica sente seu ombro ser cutucado. _ Ei, bonitão. _ Não tenho dinheiro, vá pastar – Disse sem ao menos olhar para trás. _ Não quero seu dinheiro, meu lindo. Quero você está noite. Ouvindo essas palavras sentiu a necessidade de olhar, entrou em choque profundo ao reparar na mulher exuberante de traços que o queria. Peitos, bunda, coxas... um primor. Usava batom vermelho pra enfeitar os lábios e corou também as ...

Enzo e seus 10 anos de gestação

 Rebelando-se contra o mundo cruel e azul, o pequerrucho Enzo não quis dar o ar da graça de nascer de jeito maneira. Dava pontapés no rosto do obstetra se recusando a sair daquela vagina tão acolhedora e com um pouco de fungos. Claúdia, mãe solteira do parasita (que carinhosamente chamamos de bebê), era vegana, ativista ambiental, adepta ao low carb, e não aceitava em hipótese alguma a ideia de uma cirurgia cesárea; porém é certo falar que já flertou um pouco com a do aborto. Dessa maneira o tempo foi tiquetaqueando e nada desse moleque querer ser expelido de seu habitat natural.  Até os seis meses de idade Claudia bebia o próprio leite materno que produzia em suas mamas, para assim nutrir o Enzo que permanecia hospedado em seu ventre. Com dois anos de existência, Claudia achou que ele deveria se entreter com alguma coisa, então introduziu brinquedos sexuais que para o pequeno Enzo era apenas brinquedos. Aos três anos já conseguia se comunicar com a mãe sem precisar usar a con...

Câncer de pele

 Assim como soando as trombetas do apocalipse, ao seu lado do colchonete, Juliene via o horror surgir da face de seu marido. Brotava uma pinta cor vinho na ponta do nariz de Pôncio; não demorando muito para torna-lo um palhaço com toda a ponta avermelhada. Ela em pavor coloca-se desperta já não coberta completamente pela manta. O sangue vibrava dentro dele, e o que antes era uma marcação fixa em seu corpo, agora começava a perambular como uma criança que ingeriu doses altas de açúcar. Foi aí que Pôncio sentiu o desejo de despertar, e assim o fez. Viu Juliane e as lonas enegrecidas da barraca em que estavam, mimetizando a reação de sua mulher por não ter informações suficientes para fazer com que o cérebro tivesse o devido processo. O grito dela foi finalmente libertado pela garganta, rebobinando pelo tecido fino da barraca, mas sem energia suficiente para atravessar o pasto onde se encontravam. Agora vários focos grandes de sangue coagulados pelo corpo de Pôncio, se assemelhando mu...