O monstro atrás da porta
Opa, ele acabou
de se dar conta. Percebeu a presença do terror consumido. Dá pra notar pelo seu
piripaque do Chaves e seus pelos eretos como lanças. Há algo atrás da porta.
Não foi nenhum barulho ou sombra projetada que o fez saber, é de uma matéria
óbvia sentir aquela presença. Nada no mundo provaria que aquilo é real, apenas
é e fim de papo. A razão está querendo tomar conta de seus pensamentos, mas de
todo modo ele também sabe que já está morto. Está tentando mesmo assim ser
racional, estipulando ideias com base em tudo em que já aprendeu na vida toda
para deduzir o que está ali do outro lado daquela espessa camada de madeira
maciça. Infelizmente nada do que ele pensou, está pensando ou pensará se aplica
para o mal que o rodeia. Por estar em seu quarto, onde há uma única janela, porém gradeada, vê seu forro pvc como a única escapatória, uma desesperançosa rota de fuga para não encarar o que
está do outro lado. Ledo engano, não há a menor chance de fugir dessa.
Nada e ninguém consegue salvar o que já está determinado. Haverá sem sombra de
dúvida retaliação.
Vejo agora
tentativas desesperadas de se acalmar, se fizessem uma tomografia em seu
cérebro nesse momento, veria que se mantiver nesse ritmo irá entrar em colapso
em poucos minutos. Não entendo porque ele simplesmente não aceita e para de
tentar. O que ele espera, uma epifania? Nem de longe ele tem a capacidade para
ter uma, nunca foi bom em pensar rápido, ainda mais pressionado.
Olha só pra
isso... achei que nunca veria esse tipo de coisa acontecer. Ele começou a
duvidar de suas sensações, questionando seu próprio senso de realidade. Seu
coração até diminuiu o ritmo de batimentos. Percebeu que não há nada atrás
daquela porta, que nem faz sentido haver. Acha que a experiência que está tendo
deve ser alguma daquelas anomalias mentais que passa em documentários. Está
sentindo o controle do seu corpo voltar, crente de que o pior já passou.
Entendeu que o
verdadeiro monstro não está atrás daquela porta de madeira de cerejeira, está
em sua própria cabeça imaginativa. Pensando desta maneira, lá vai ele abrir a
porta; o que pouco antes seria uma ideia inconcebível. É claro que não está
totalmente convencido dessa linha de pensamento, mas foi a solução mais
congruente que sua mente encontrou para suportar aquilo.
Um pequeno
momento de tensão para abrir a porta e agora concluiu que realmente só fora um
grande devaneio de sua cachola. Não, ele foi devorado mesmo.
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