Mau-olhado

 Meu mundo é escuro e perigoso, pelo menos tenho minha mãe, há pessoas por aqui que estão por conta própria. Nossa aldeia tem por volta de 15 mil moradores, há muros enormes envolta e uma selva densa por todos os lados. Minha mãe disse que desde que ela se conhece por gente foi dessa maneira, cada qual recluso em seus cubículos sem janelas, com portas de no mínimo 3 trancas e com seus capuzes em suas cabeças. Eu de fato nunca vi nenhum rosto em toda a minha vida, nem o da minha própria progenitora. Todos têm suas cabeças cobertas como carrascos. Ninguém se conhece direito e ninguém confia um no outro. Se fizerem isso correm o risco de serem aniquilados instantaneamente por quem tiver maldade em seu íntimo, e não é muito difícil encontrar pessoas assim por aqui. Minha mãe conta que já viu um homem em estado de loucura tirar seu saco a plenos olhos, diz que não passou nem 5 segundos para que o homem caísse sem vida. Por conta disso, cautelosa como ela é, as vezes chega a me enforcar no pescoço fazendo nós complexos prendendo o saco, para que ele de jeito maneira caia e que ninguém direcione seus pensamentos ruins sobre mim. É preciso ver o rosto, a identidade visual; um poder muito útil no abate de animais enormes que há surgindo da selva. Segundo minha mãe, qualquer um consegue, até mesmo um bebê; por isso fui vetado de ver o rosto dela desde meu nascimento, em algum excesso de choro por fome ou cólica eu poderia desejar, mesmo sem compreender, pensamentos destrutivos contra ela, um tipo de complexo que se dá entre mãe e filho. Assim também como ela em momentos de desespero e irritação poderia me praguejar com os mesmos pensamentos.

Ela me ensinou como sobreviver nesse mundo, um mundo onde ela como mulher é muito mais difícil de se ter paz. Não há comunhão entre familiares, nenhum homem e mulher tem uma relação saudável ao procriar, aliás, as mulheres são praticamente estupradas por brutamontes com o dobro da força delas, sem ao menos poder pedir por ajuda. Foi assim com minha mãe e ela ainda conta que o homem que o fez, meu pai, conseguiu tirar seu capuz e ameaçá-la para que ela não matasse o bebê, o que muitas mulheres fazem para não haver lembranças literalmente vívidas. Ele queria que vingasse aquela gravidez para poder ter uma continuação dele no mundo. Nunca cheguei a conhece-lo de fato, só por histórias; pouco antes de eu nascer ele já havia sido morto por aqueles que nem tentam ser civilizados durante a luz.

Todo dia há morte. Muitos se cansam de viver com medo e enfrentam a selva. Mas há outros por aí, refugiados, outros conglomerados, e os piores de todos: os selvagens; os que gostam de todo esse caos e o abraça. Já pisou uns 20 pela nossa aldeia pelo que me lembro, mas todos concordam que é um risco igual de perigosidade para todos que sobrevivem aqui. Daí o motivo dos muros.

Ninguém é ávido para ter tal poder, é demais para a corrupta mente humana. Viver atrás de mantos escondendo-se de minha própria espécie, de minha própria mãe, é cruel. Busquei um balde de água do poço antes de vir fazer essa narrativa, olharei para ele sem o capuz e desejarei que isso tudo acabe.

 

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