Câncer de pele
Assim como soando as trombetas do apocalipse, ao seu lado do colchonete, Juliene via o horror surgir da face de seu marido. Brotava uma pinta cor vinho na ponta do nariz de Pôncio; não demorando muito para torna-lo um palhaço com toda a ponta avermelhada. Ela em pavor coloca-se desperta já não coberta completamente pela manta. O sangue vibrava dentro dele, e o que antes era uma marcação fixa em seu corpo, agora começava a perambular como uma criança que ingeriu doses altas de açúcar. Foi aí que Pôncio sentiu o desejo de despertar, e assim o fez. Viu Juliane e as lonas enegrecidas da barraca em que estavam, mimetizando a reação de sua mulher por não ter informações suficientes para fazer com que o cérebro tivesse o devido processo. O grito dela foi finalmente libertado pela garganta, rebobinando pelo tecido fino da barraca, mas sem energia suficiente para atravessar o pasto onde se encontravam. Agora vários focos grandes de sangue coagulados pelo corpo de Pôncio, se assemelhando muito a uma luminária de lava dos anos 60, iam surgindo gradualmente a fosforescência conhecida desse item de decoração brega. Logo ele compreendeu que o horror estava sendo emanado de si próprio e começou a encarar os braços, principalmente as mãos; elas tremiam assim como todo o interior de seus ossos. Um barulho de algo que deveria ser o mesmo som que ouviria de um buraco negro começou a pulsar; algo remetendo a ruptura, corrupção, glitch.
Pôncio tinha seu corpo formigando como se estivesse todos os
seus órgãos dormentes; células e plasmas em seu sangue ziguezagueando dentro
das veias e artérias imitando a bola de um pinball. Uma dor nauseante tomou
lugar. De fora as manchas se desvencilhava do corpo e espalhava suas moléculas
pelo ar. Juliane até agora sem reação decidida, pois queria ajuda-lo mas ao
mesmo tempo sentia ímpetos de fuga imediata, acabou pela segunda opção quando
viu brotar da boca de seu amado uma luz amarela a iluminar a sua pequena
barraca; como ela sendo um barco à deriva e o marido o seu farol. Porém, neste
caso, o farol tendo o oposto de sua função.
Dava tropeços e saltitava sem ritmo em sua corrida. Atrás
via a barraca abrindo um clarão no céu noturno, e por mais detrás ainda um
majestoso templo maia com suas escadarias ornamentadas, runas que já não são
lidas há séculos, e uma aura escarlate descendo encobrindo o chão com uma
fumaça beirando a ser sólida.
Enfim, Juliene atravessou o pasto, se deparando com as
mesmas placas de "proibido ultrapassar" em espanhol e inglês que
tinham visto quando passados por ali no dia anterior. Respirava ofegante, quase
expelindo os pulmões pra fora, até que lentamente se acalmou e adormeceu por
completo no chão folheado. Acordou com suas pálpebras vermelhas, tendo um sol
acalentador em seu rosto. Levantou e viu o marido a sua procura. O efeito dos
cogumelos já havia passado.
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