Enzo e seus 10 anos de gestação
Rebelando-se contra o mundo cruel e azul, o pequerrucho Enzo não quis dar o ar da graça de nascer de jeito maneira. Dava pontapés no rosto do obstetra se recusando a sair daquela vagina tão acolhedora e com um pouco de fungos. Claúdia, mãe solteira do parasita (que carinhosamente chamamos de bebê), era vegana, ativista ambiental, adepta ao low carb, e não aceitava em hipótese alguma a ideia de uma cirurgia cesárea; porém é certo falar que já flertou um pouco com a do aborto. Dessa maneira o tempo foi tiquetaqueando e nada desse moleque querer ser expelido de seu habitat natural.
Até os seis meses de idade Claudia bebia o próprio leite materno que produzia em suas mamas, para assim nutrir o Enzo que permanecia hospedado em seu ventre. Com dois anos de existência, Claudia achou que ele deveria se entreter com alguma coisa, então introduziu brinquedos sexuais que para o pequeno Enzo era apenas brinquedos. Aos três anos já conseguia se comunicar com a mãe sem precisar usar a conexão wireless que há entre mãe e filho, pois o cordão umbilical servia como um cabo de rede entre o dois; pedia sempre que a mãe comesse Danone de pêssego que era o seu favorito. Aos quatro deu uma bicuda em um pênis de um cara que a mãe conheceu no Tinder. Aos cinco foi retirado uma parte da pele da barriga de Claudia e colocado uma telinha de vidro pro Enzinho espiar o mundo pela primeira vez; consequentemente ficou decepcionado e pediu pra instalar uma persiana. Com seis anos de idade sua mãe o carregava, literalmente, pro jardim de infância, tendo que responder por ele quando a professora fazia perguntas e também beijando por ele sua primeira namoradinha atrás do escorregador. No seu sétimo ano de vida sua mãe lhe deu um celular da Xiaomi de aniversário, ela o engoliu como se fosse passar pela alfândega ilegalmente pra outro pais e enfiava um cabo pela vagina quando precisava carregar. Os aclamados oito anos chegaram, e a essa altura Enzo tinha lá seus amiguinhos que o chamava para dormir na casa deles. Claudia querendo que o filho tivesse uma infância completa o levava, dormia em sacos de dormir que mal cabia ela e cheirava a urina de crianças mijonas a noite toda; pelo menos o Enzo nunca precisou sair no meio da noite com saudades da mãe. Chegando aos nove foi necessário usar aparelho pra corrigir os dentes que nunca foram usados, precisando que ele botasse pra fora a cabeça durante as sessões com o dentista; o que deixou Claudia um pouco dolorida, mas a assistente dopava ela com gás do riso e ficava tudo certo.
Disso se passou dez anos de tempo terráqueo e o Enzo, já não tão pequerrucho, ainda habitava as entranhas de sua progenitora. Vivia lá naquela piscina de líquido amniótico como um peixe em um aquário que não se troca a água. A essa altura crescia dentro dele a curiosidade de saber como era o mundo visto de fora e ele tinha também um torneio de Free Fire pra ir que a mãe se recusava a levar, requerendo assim que ele finalmente nascesse de vez. Precisou de um fórceps e muita manteiga, mas no fim deu tudo certo e nasceu o bebê mais velho do mundo; depois do bebê jupiteriano do Chapolin obviamente. E só a título de curiosidade, ele terminou em décimo sexto no torneio.
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