Versão única

 Pra começo de conversa digo que sou do futuro, ou melhor, do seu futuro. Precisamente no ano de 2184, e não, o mundo ainda não acabou até onde eu sei. Me recuso a entrar em detalhes pois a maioria das grandes transformações foram sociopolíticas, o que não passa de cansativo e inútil. O que eu realmente quero dizer aqui é o meu singelo ponto de vista sobre meus companheiros de século, suas formas de se expressarem corporalmente. De antemão digo que sou velho, na verdade me sinto velho. Não o típico rabugento que não gosta de mudanças, mas o que para um momento do dia pra escrever sobre algo que jugou ser relevante e que de nada importa aos outros pois é o normal. Por isso também redireciono a observação que farei ao passado, ao passado que vive na minha cabeça. Deixando de disque me disse vou ao assunto de vez.

A grande estilização começou devagar, como todas as outras revoluções. As pessoas tingiam os cabelos, faziam crossovers em eventos, bronzeamento artificial, um brinco ali, um piercing acolá, clareamento anal; mudanças de visual que cria uma caracterização, uma identidade nova. Culpa é claro da globalização, onde foi se miscigenando todas as culturas até virar apenas uma: a diversidade. Com o avançar da tecnologia estética, tornou se mole-mole fazer transformações radicais sem nenhuma implicação na saúde. Mais do que isso, passou também a ser viável para a plebe trabalhadora. Cada fio de cabelo, cada pigmento de pele consegue-se alterar com tanta facilidade, que os cristões logo se prontificaram a dar o parecer de que aquilo era algo divino, que só o bom Deus poderia ter aquele grandioso poder; a mesma lengalenga da clonagem. Em um certo verão, não me recordo em que ano, houve uma moda de se fazer uma estilização 3d de asas de anjo nas costas, que fez com que eles desistissem da revolta hipócrita. Daí em diante não se teve mais grandes brigas éticas contra os procedimentos.

É evidente que nem todos quiseram ter seus corpos denegridos, alguns como eu, continuam puros. Esses de fato são os únicos grupos existentes: os coloridos e os puros. O que felizmente acabou com brigas raciais; negros e brancos são minorias tratados como mais uma cor qualquer. Também com as vestimentas de um extremamente diferente da do outro, é muito difícil saber o emprego, a religião, o gênero só olhando de vista. Ninguém pertence a um grupo específico além dos que escolhem ou não ser modificados. Engraçado porque o desejo de mudar de visual constantemente surge da ideia de se enquadrar em um grupo, se não fosse por isso você não postaria fotos frequentemente nas Space Sociais afim de ganhar likes. Sim, mudar o visual pode deixar o indivíduo feliz, mas não vale de nada se não tiver alguém para perceber. Por conta disso resolvi tentar entrar na onda também, não quero parecer um alienígena no meu próprio planeta, ou mesmo envelhecer de vez a minha mentalidade. Amanhã de manhã irei escamar minha pele, quem sabe rola um anel peniano.

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