Pulsação
Me encontro em uma situação das mais bizarras da minha vida agora. Faz cerca de uns 10 minutos que estou nesse quarto cheio de mofo. Na minha frente vejo telas, várias delas; aparentemente são imagens de câmeras e estão todas mostrando um homem nu em um quarto parecido com o meu, cada câmera virada para um ângulo diferente. Ele está sentado agora ao que parece... meditando? Na verdade, desde que me lembro de estar aqui nessa porcaria de lugar. Em tempos em tempos acontece uma coisa que eu não consigo descrever direito, o teto... as paredes... o quarto todo dele vibra. Parece doer muito. Lembra bastante uma possessão demoníaca. Quando acaba ele volta ao que estava fazendo.
Nos primeiros minutos forçava minha mente ao extremo tentando descobrir a minha última memória sem ser nesse lugar; não consegui. É impossível tentar me imaginar sem estar aqui, parece ser o meu berço; onde cresci e fui criado. Mas de onde então veio o conhecimento externo que sei que existe em algum lugar de mim, porém não consigo usá-lo? Por que há 10 minutos atrás senti que não pertencia a este lugar? E se realmente eu sou de outro lugar, como vim parar aqui? De algum modo sei que essas perguntas não existem respostas, assim como sei que não devo tirar os olhos daquele homem. Falando nele, lá vem outro tremor. Está ficando forte e mais longo. É excruciante ver uma pessoa contorcer até seu último músculo em intensa agonia. Olhando pela tela da câmera mais em cima dá pra notar que o cabelo dele não está tão preto como dantes, é evidente os fios acinzentados; sem falar na pele cada vez mais murcha. Pela aparência daria uns 40 anos, provavelmente está aqui há mais tempo que eu, mesmo eu não sabendo quanto tempo estou aqui. Ou também pode ser que todo esse sofrimento o tornou o que é agora; o que me faz questionar o que irá acontecer quando ele não aguentar mais e se o meu destino está fadado a ser igual.
Tá, começou algo. Os mofos agora estão quebrando as paredes dele, há raízes perfurando e tomando conta do lugar aos poucos, terra empoeirando o pobre homem e encobrindo o chão. Reconheço aquilo... é água, a mais límpida água escorrendo como goteira nesse exato minuto, deixando o homem encoberto de barro. As raízes começaram a se contorcer como se existisse intenção nos seus movimentos. Elas envolvem e puxam o homem, que agora petrificado em posição meditativa, lembra a imagem de Buda.
Não! Eu não quero ficar sozinho aqui! Para onde será que estão o levando? O que existe depois dessa cratera gigante no teto? Droga, não há como ver pelas câmeras. Merda, merda, merda... espera, algo está surgindo. Aquilo é uma... gaivota?
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